O caminho percorrido por um pneu descartado até virar matéria-prima para novas aplicações começa dentro de recicladoras especializadas. No Distrito Federal, a Quality Rubber é a única empresa que realiza todo esse processo, desde o recebimento do material até a separação dos componentes que formam a estrutura do pneu. A empresa é um ponto credenciado da Reciclanip, organização ligada à Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), que cuida da coleta e destinação de pneus inservíveis.
Denis Canhoto Miranda, sócio e responsável pela logística reversa da empresa, afirma que a participação da iniciativa privada é necessária para o funcionamento do ciclo. “As fabricantes e importadoras de pneus são responsáveis por esse recolhimento. Nós nos credenciamos junto à Reciclanip e hoje somos um ponto de coleta para destinação correta de pneus em Brasília”, explica.
O processo começa com o armazenamento correto do material em área coberta, para evitar contato com chuva e acúmulo de água. Em seguida, os pneus seguem para a linha de produção, onde o aço das laterais, chamado talão, é retirado e encaminhado para a siderurgia. Na trituração, o pneu é moído em fragmentos cada vez menores até virar pó. Os primeiros subprodutos são os chips, pedaços grandes de borracha que ainda mantêm aço e fibras misturados. Parte desses chips é usada pela indústria cimenteira como combustível nos fornos, aproveitando a alta capacidade de queima do material.
Nas etapas seguintes, a borracha passa pela granuladora e pela peneiração, que separa o aço por meio de ímãs e classifica os grãos por tamanho. Pneus de carros e motos passam por um processo extra para retirada de fibras de nylon, evitando contaminação dos produtos finais. Depois da separação, os granulados maiores são usados em gramas sintéticas, pisos emborrachados e equipamentos de academia, como anilhas e halteres.
A Quality Rubber, com quatro meses de atividade, é a única empresa do DF e região que tritura o pneu além da fase dos chips. O pó de borracha resultante é destinado à produção de asfalto-borracha. “A gente preferiu construir a linha completa, porque aproveita melhor o material e não usa só para queima. Dá um valor agregado melhor e ajuda a não ter tanto descarte para a área de queima”, diz Denis.
A tecnologia do asfalto-borracha usa o pó de pneus como componente do ligante asfáltico, criando uma mistura com mais elasticidade e resistência. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o uso é regulamentado pelas normas DNIT 111/2009 e DNIT 112/2009. Estudos indicam que a borracha pode aumentar a durabilidade do pavimento e reduzir a frequência de manutenções, mas a adoção depende de análises técnicas e da capacidade das usinas.
Um exemplo de aplicação é a Ponte de Guaratuba, no litoral do Paraná, que usou asfalto-borracha em sua infraestrutura por meio do programa Brasil Rodando Limpo, da Associação Brasileira de Empresas de Reciclagem de Pneus Inservíveis (Abrerpi). A obra reaproveitou cerca de 23 mil pneus, transformados em aproximadamente 600 toneladas de massa asfáltica. O material passou por uma cadeia de empresas: a recicladora forneceu o pó, a indústria de asfalto produziu o ligante e uma terceira empresa aplicou a pavimentação.
Joel Custódio, diretor administrativo da Strasse Reciclagem de Pneus, que forneceu o pó para a obra, explica que o setor depende da integração entre diferentes empresas. “Não é uma empresa que faz tudo. É um conjunto de empresas trabalhando para que aquela obra aconteça. Cada uma faz o seu pedaço e, no final, chega ao resultado completo”, afirma. Uma estimativa do setor indica que, em uma pista simples de sete metros de largura, cerca de mil pneus podem ser reaproveitados por quilômetro de pavimentação.
Apesar dos avanços, o reaproveitamento dos pneus ainda enfrenta desafios para crescer. Muitas recicladoras concentram suas atividades no processamento para cimenteiras, que exige menos etapas industriais. “O coprocessamento é mais fácil de fazer porque o pneu passa apenas pela trituração. Para chegar ao pó de borracha, existe todo um processo de separação e controle”, explica Joel. Segundo ele, há material suficiente para atender tanto o coprocessamento quanto o asfalto-borracha.
A Quality Rubber ainda não atingiu sua capacidade máxima de produção, mas tem potencial para gerar cerca de uma tonelada de borracha triturada por hora, sendo 15% destinada ao asfalto-borracha. Estima-se que o DF e o Entorno gerem aproximadamente 12 mil toneladas de pneus inservíveis por ano. Para Joel, o avanço do mercado depende de uma integração maior entre setores público e privado. “O que falta é uma integração entre os setores, tanto público quanto privado, recicladoras e indústria. Cada um faz uma parte. Se não houver essa integração, a coisa não anda na velocidade que precisa.”
